As pessoas perguntam-me muitas vezes: "Então… o que é que tu fazes, exatamente?"

Respondo que trabalho em finanças sustentáveis, e percebo logo que isso não diz grande coisa. Alguns ouvem "sustentável" e assumem que trabalho numa instituição de caridade, ou que ajudo empresas a reciclar e a plantar árvores. Outros ouvem "finanças" e imaginam-me como analista num banco. Muito poucos sabem o que é realmente esta área, porque existe e porque é importante.

Esta é a minha tentativa de o explicar, não como o faria um manual, mas como eu própria o aprendi a entender, depois de uma década neste campo.

A história começa antes de as finanças sustentáveis terem um nome. Durante décadas, as empresas impulsionaram o crescimento, criaram empregos e geraram prosperidade, muitas vezes sem contabilizar plenamente o seu impacto social e ambiental. Muitos desses custos permaneceram invisíveis ou acabaram por ser pagos pela sociedade. Com o tempo, as empresas começaram a reconhecer que o sucesso de longo prazo depende de mais do que os resultados financeiros. A forma como tratam os trabalhadores, as comunidades e o ambiente não é apenas uma questão ética; pode também afetar a resiliência e o sucesso da própria empresa. Esta forma de pensar evoluiu através da responsabilidade social das empresas e, mais tarde, do ESG: a consideração sistemática dos fatores ambientais, sociais e de governação. Alguns líderes perceberam isto muito antes. Como italiana, não posso contar esta história sem mencionar Adriano Olivetti, que foi um verdadeiro game changer. Nos anos cinquenta, construiu uma empresa altamente inovadora enquanto oferecia aos trabalhadores melhores salários, bibliotecas, creches e serviços sociais. Mostrou que o sucesso empresarial e a responsabilidade para com as pessoas e as comunidades não tinham de estar em conflito.

Da comunidade ao capital: os marcos que transformaram a empresa responsável em finanças sustentáveis.
Da comunidade ao capital: os marcos que transformaram a empresa responsável em finanças sustentáveis.

A par das empresas, a sociedade sempre contou com outro mecanismo: governos, instituições de solidariedade e fundações filantrópicas. O seu papel sempre foi essencial. Muitos problemas, simplesmente, não se resolvem através dos mercados. Mas, com o tempo, a escala dos desafios globais cresceu enormemente. Alterações climáticas, perda de biodiversidade, pobreza, saúde, educação. Enfrentá-los exige investimentos na ordem dos biliões de dólares por ano. Os orçamentos públicos e a filantropia continuam a ser indispensáveis, mas, sozinhos, não chegam.

E é aqui que a história se torna interessante. Em vez de perguntar apenas "como podemos doar mais dinheiro?", as pessoas começaram a perguntar "como podemos investir o dinheiro de forma diferente?" As finanças deixaram de ser algo separado dos problemas do mundo e passaram a ser uma das ferramentas para ajudar a resolvê-los. Para mim, é aqui que começam as finanças sustentáveis. Dessa ideia simples nasceu uma família de instrumentos. As obrigações verdes (green bonds), que permitem a governos e empresas endividar-se especificamente para projetos climáticos e ambientais (hoje já têm primos sociais e azuis). O blended finance, em que o dinheiro público ou filantrópico assume a parte mais arriscada de um investimento para que os investidores privados possam participar. E o investimento de impacto, que merece um olhar mais atento. As finanças sustentáveis são um grande guarda-chuva. O investimento de impacto é uma abordagem específica dentro dele, em que os investidores procuram intencionalmente resultados sociais ou ambientais mensuráveis, a par de um retorno financeiro. Algumas abordagens vão um passo mais além. No financiamento baseado em resultados, os pagamentos não estão ligados às atividades, mas aos resultados efetivamente alcançados: crianças que aprendem, doentes que recuperam, emissões que diminuem. A pergunta muda de "o que financiámos?" para "o que mudámos realmente?" Para mim, é para aí que todo este setor caminha.

Um mal-entendido merece um parágrafo próprio. Muitos assumem que finanças sustentáveis significam abdicar de retornos, como se fazer o bem e ganhar dinheiro fossem, por definição, incompatíveis. Não são. A maior parte do investimento sustentável visa retornos normais de mercado; um parque eólico bem gerido é simplesmente um bom ativo. E quando os investidores aceitam retornos mais baixos, na filantropia ou no blended finance catalítico, trata-se de uma escolha deliberada com um propósito, não de um sacrifício por acidente. A pergunta nunca é lucro ou impacto. É o que cada euro está a tentar alcançar.

Na minha área fala-se muito do espetro do capital. De um lado, a filantropia, que não espera nada em troca. Do outro, o investimento comercial, que procura o melhor retorno possível. No meio estão as finanças sustentáveis, o blended finance, o investimento de impacto etc. Nenhuma forma de capital é melhor do que outra. Problemas diferentes exigem tipos diferentes de dinheiro, e nenhuma abordagem consegue, sozinha, resolver tudo.

O espetro do capital: problemas diferentes exigem tipos diferentes de dinheiro.
O espetro do capital: problemas diferentes exigem tipos diferentes de dinheiro.

Então, no meio disto tudo, o que é que eu faço? Muitos pensam que as finanças são apenas dinheiro. Eu aprendi a vê-las como uma forma de ligar mundos. O meu trabalho exige compreender economia, finanças e mercados financeiros, mas também políticas públicas, ciências sociais e ambientais, ética, direito e ciências humanas.

Trabalho com governos, investidores, fundações, bancos de desenvolvimento, ONG e especialistas técnicos para desenhar soluções financeiras que direcionem capital para projetos com resultados ambientais e sociais positivos.

Para mim, é um dos trabalhos mais fascinantes que consigo imaginar, porque nenhuma disciplina, sozinha, é suficiente, e há sempre algo novo para aprender.

Serei honesta. As finanças sustentáveis não são uma solução perfeita e não vão resolver todos os desafios globais. Os mercados têm limites. Os governos têm limites. A filantropia tem limites. Mas quando estas diferentes formas de capital trabalham em conjunto, conseguem muito mais do que qualquer uma delas conseguiria sozinha.

Se há uma coisa que espero que esta história torne mais clara, é que as finanças nunca são apenas dinheiro. Influenciam que empresas crescem, que projetos se constroem e que problemas recebem atenção. As finanças sustentáveis e o investimento de impacto consistem em usar essa ligação de forma mais deliberada, direcionando o capital para resultados que importam. O meu papel é ajudar a que isso aconteça: ligar finanças, políticas públicas e necessidades reais, para que as boas ideias se tornem investíveis e, no fim, gerem impacto.

Claro que, na vida real, raramente há tempo para explicar tudo isto. Por isso, quando alguém me pergunta o que é que eu faço realmente, normalmente sorrio e respondo: "Ajudo o dinheiro a fazer mais do que um trabalho de cada vez." E quando ficam confusos, bem, agora posso enviar-lhes isto.